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Seu moço tô disgostôso, tô triste e acabrunhado, cum essa falta de respeito, qui tá inzistindo no mundo,
Já tô ficando irritado, prú via do que tô vendo, inté a fé tô perdendo e tô munto amaguado!
Arrepare bem seu dotô! Pois tenho munta razão, um cabôco cuma eu, nascido lá no sertão, 
Criado no mêi da mata, póbe de inducação, carregado de famía, trabaiando em minha roça,
Morando numa paióça, cum toda respeitação, pruquê lá num inzistía, a tá cumunicação!
Talvez o demo e o capêta, querendo mi atentá, me trouve a infiliz idéia, prú móde um dia eu comprá,
Um aparêi qui inzíste, nas lojas da capitá! Um tá de rádio de pía, prá eu cum minha famía, músga e nutiça iscutá!
Apôs bem dotô eu fiz, a mais maior incunomia, comprei um rádio de pía, levei pra minha paióça,
Lá no mato minha roça, mandei um téco montar, e adispôis da giringonça, tá pronta móde cantar, 
Cum prazer e alegria, cunvidei minha famía e fumo logo iscutá! Era um dia de dumingo, de menhã munto cedim,
Quando eu mi alevantei, cum a muié e a fiarada, fumo iscutá o aparêi. Mas seu dotô que miséra! ô dirgraça o qui comprei! 
Nunca nós imaginava, que as músga que ele tocava, só trazia nome fêi! A premêra que tocou, nem sei dizer pro sinhô, da nossa invergonhação!
Era uma músga indecente, que fazia raiva a gente, num cabia no salão! A músga dizia assim: (Discúpe dotô, disculpe, discúpe a má expressão)
Mas cantava desse jeito: "Ou que lapa de minhoca! Mas êita que minhocão! 
Eu num faço nem promessa, pois cum uma mióca dessa, eu pego qualquer muierão! 
 Mas que depressa doutor, eu apertei no botão, que o téco me insinou! E o imoral parou! 
Minhas fías mi oiaram, a muié também me oiôu, fiquemo ali sem ação, morrendo de acanhação, da músga que ele tocou. 
Demorei um pedacim...Pra ver se já tinha mudado, liguei o rádio de novo, 
Mas doutor, o dirgraçado tava tocando outra músga, muito mais acanaiado, e cantando ele dizia:
-'O que é bom tá guardado, o que é bom tá guaradado, mas só dou o xico véi, porque é meu namorado'! 
Tornei apertar no butão prú móde o imoral parar; a muié disse: Meu véi! Deixe esse imoral prá lá!
Demore mais um pouquim! Pode ser quem sabe lá, que daqui um pedacim, essas músgas vão mudá!
Demorei uma meia hora, isperando alí impé! Abri o rádio de novo, cum munto receio inté! 
Mas doutor, o dirgraçado, só toca músga imoral, e só canta o que ele quer! 
Arrepara agora doutor, a músga que ele tocou, vou lhe dizer cuma é, a músga dizia assim: 
-"A coisa mior do mundo é coçar bicho de pé, e eu passo o dia coçando o bicho da minha muié"!
-Arrepara agora doutor, a músga que ele tocou, vou lhe dizer cuma é, a músga dizia assim:
Ah! Seu dotô, nessa hora, eu fiquei amalucado, dei de garra dum machado, móde o rádio arrebentar, 
Minhas fías de lá gritáro, chorando me improráro, móde eu me acalmar! 
"Papaizim num faça alarme! Pode intécê que a mais tarde, essas músgas vão mudar! 
Móde atender minhas fías, cai na mêrma isparrela, abri o rádio a mais tarde cum coidado e cum cautela!
Repáre bem seu doutor, a músga que ele tocou! Foi exatamente aquela, que dizia mermo assim:
"Hoje a noite avexadim ele vai é cumê ela"!
Aí doutor, indoidêi! Brábo que nem um leão!
Parti prá riba do rádio, cum minha faca na mão,
Mas porém o locutor, dono da programação, 
Foi dizendo prus ouvintes: "Atenção! Munta Atenção! Pruquê agora vai sair um disco de prupurrí de músga só do sertão!
Prú via dessa nutiça, eu mudei de opinião: Isperei sair o disco, de prupurrí do sertão. 
Ah! Seu doutor, foi pior! Mais pior que as ôita intão, incapaz dagente ouvir, pois o tá de prupurri, só tinha acanaiação! 
A Primêra que tocou, foi um xote dirgraçado que dizia desse jeito:
"Muito embora no Brasil os pássaro tão acabado, 
Diz a tia Madalena, que ainda há jacu sem pena e ainda há jacu pelado!
E cantando foi cantando, ôita músga fêia e tôla, 
Que faltava disciplina, a músga dizia assim:
"Eu vou trocar minha rôla, no periquito da minha prima!
E continuou cantando, um baião e um xaxado, que dizia desse jeito:
"Numa festa, quis sê macho, não tive bom resultado,
Me dero um xute por baixo, acertáro nos meus caxos, maxucou meus dois cunhados! 
E continuou cantando, uma voz afinadinha que dizia mermo assim:
"Eu num gósto de coisinha, quem tiver pra mim num mande, sou muié piquenininha, mas só gosto de tudo grande! 
Ah! Seu dotô eu já tava, móde num aguentar, 
Quando tocô essa músga, mais pió mais imorá,
Era uma muié que cantava, que se punha a lastimá!
Cantando dizia assim:"Eu trabáio o dia todo, de noite venho istudá, Cum esforço e com empenho, 
Mas pra ganhar meu dinhêro não entro no desepêro pois eu faço o curso "A"!
Daí dotô, num aguentei! Cum tanta anarquiação,
De machado em punho quebrei, este imoral esse cão,
E disse pra bagacêra, que rolava pelo chão: "Saia daqui seu safado! Vá imbóra seu ladrão! 
Vá lá pra sua cidade, cantar imoralidade, pra tal civilização!
Se é que gostam dessas músgas, se é que fazem essa canção"!
Nunca mais minha paióça, vê rádio ou televisão,
Quero mermo é minha vida de cabôco sertanejo, Sem ter comunicação!
Recebendo a luz do sol, cum a glorificação da subrime noite fria, e a sua escuridão,
A água lá na cascata, a lua da cor de prata, banhando o verdô das matas, cum sua iluminação!
Canta o sapo na lagôa, no terrêro late o cão,
O bode lá no chiqueiro,faz um terrível berrêro, com sua bodejação,
O tetéu mais positivo, de vez em quando um aviso,   Com sua triste canção! 
E quando é de madrugada, que já vem rompendo o dia,
Canta toda passarada, a mais linda sinfonia, a mais sublime canção, 
E o galo amiudando, cantando lá no pulêro, avisando ao mundo intêro, 
Que a noite já passou, que o dia já raiou, cum nova iluminação! 
São coisas da natureza! Prá se ver tanta beleza, tem que morar no sertão!
Prá que diabo eu quero rádio seu doutor! Ou mêrmo televisão?
Cantando imoralidade, nuticiando violênça, acabando cum a inocênça do CABÔCLO DO SERTÃO?


Do Livro: Desabafo Nordestino II -  POETA: Luiz Bezerra.


Por Luiz Everardo B. Lopes. 25/02/2010
PUBLICADO EM MEU 1º BLOG NO DIA 17/01/2010

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publicado às 17:44


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